quarta-feira, 27 de março de 2013

Trabalho de Apresentação em Montenegro


                                                                          


Universo Invisível da Infância Perdida nos Espaços Escolares

Geovani Rios do Nascimento (UERGS)
Adriano Lopes Bueno (UERGS)
 Orientadora Prof.ª Drª Arisa Araújo da Luz (UERGS)

Resumo: As convenções sociais são cadeias de metáforas do desejo idealista burguês de representação. Tão burguês que representar é mais importante que ser. Enquanto isso as escolas se arrastam num comodismo de diretoras e métodos antiquados e dizem balançando as mãos com dedos cheios de pó de giz que “no meu tempo era assim”. Desse modo perpetua-se um sistema que não faz mais sentido no presente cheio de informações e características singulares que se tornam mais evidentes e publicas nas redes sociais. Porem o universo empírico encontrado no meio social da vida dos escolares tem outros aspectos que parecem nunca mudar, como o nascimento de um bebê. Cada ano letivo é um nascimento e tendo como alvo principal o aluno, por este enfrentar na escola uma espécie de reflexo do que passa em casa tenho como objetivo denunciar em breve relato parte do cotidiano de um aluno.
Palavras-chave: cotidiano, aluno, violência.

Introdução

A vida cotidiana de cada aluno pode ser violenta, mas a vida escolar não! Na verdade, em nenhum momento uma criança merece violência, salvo as primeiras expedições amorosas, mas isso já é outro conflito embora não devêssemos deixar de lado quando o tema a ser tratado é violência.
Nos últimos dias presenciamos algumas cenas de violência trazidas descaradamente da vida familiar para dentro da escola. Observamos que alunos são vitimas de Bullying por parte dos colegas que não aceitam, principalmente sua condição física. Por ter problemas com a balança, alguns meninos e meninas são tratados de forma pejorativa pelos colegas e não vimos nenhuma atitude tomada contra isso por aqueles que têm a responsabilidade de fazer o monitoramento dos alunos na entrada, no recreio e na saída. Entendemos que isso seria responsabilidade da escola.
Se pedofilia e estupro de vulneráveis é crime, o que faz disso ser mais grave do que o alcoolismo, discussões paterno maternais, palavrões de afronta e todo escape cotidiano que as crianças, principalmente as menos favorecidas monetariamente, presenciam sendo atingidas na delicadeza de sua infância. As diferenças estão sob uma linha tênue entre o agir criminoso e o habito. Por trás disso há irrefutavelmente um sujeito que pratica um determinado crime a uma criança, é investigado e preso se comprovada a pratica ilícita. Tendo como exemplos mais corriqueiros: diabinho, cala a boca, vai tomar no c., você e o teu pai não prestam, tu és pior que a tua mãe, você não vale nada, vou cortar essas tuas mãos, vai pro inferno!... E todo tipo de etcs... E momentos infelizes assim, não são primeiramente presenciados fora de casa e sim no dia a dia familiar, o que é um absurdo, mas  não é só isso que reproduz a violência.

Olhos e Ouvidos Contam

Nesse ponto nos transformamos em testemunhas da vulgaridade do sistema neoliberal embrutecedor de corações.

O capitalismo é movido pela tendência à generalização da forma-mercadoria, a máxima ampliação possível do âmbito da produção de mercadorias como proporção do produto da sociedade como um todo. Liberalismo era a forma ideológica precípua no primeiro estágio, predominantemente extensivo, do capitalismo caracterizado por elevados ritmos de expansão da produção. [texto disponível em: http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/c_deak/CD/4verb/neolib/index.html, acesso: 29/09/2012]

Conhecemos superficialmente a vida de um menino de nove anos que mora com sua mãe, mais um irmão de seis anos e seu avô materno. Quanto a seu pai, mora a aproximadamente 600 km, porque não pode largar o emprego que tem, para ficar mais próximo, e por razões financeiras tem a garantia de renda. O avô por sua vez, é alcoólatra e vive de “bicos” de jardinagens, tem apenas o 3°ano do ensino fundamental, tem como meio de acesso a informação, rádio e televisão. Pela manhã ouve atentamente os dramas policiais que são informados abertamente pelo rádio, à tarde ou à noite quando está em casa, assiste o noticiário local em sua televisão em preto e branco e alguma novela. Não espera mais nada de sua vida a não ser a aposentadoria Diante de um universo gigante para conquistar, vícios, crimes de habito e apostas inúteis, quase suicidas parecem como grandezas capazes de desviar a atenção da tela preta e branca para se fincar na realidade de barzinhos, pequenos favores ou mão de obra fácil a troco de pinga. Esse esgotamento pode ter sentido depois de experimentar a orfandade e pagar a pena de ter nascido em uma família sem meios de sustentá-lo em tamanha escassez de condições básicas, então foi “doado” pelos pais a um fazendeiro que lhe criou e cuidou como filho, só que por razões do alcoolismo que está presente em sua vida desde a adolescência este foi perdendo bens materiais e reconhecimento familiar, tanto de sua família de criação quanto da família que ele próprio formou. Até hoje, sua vida parece ser uma ilha de sonhos, quase alucinações e banhada de um gigantesco vazio com a presença de alguma esperança, mas é só esperança.

Propósito Possível

Na Universidade temos a possibilidade de conhecer melhor, também entender e possivelmente modificar aquilo que não nos agrada, tais como as práticas educativas, muitas impostas aos alunos de maneira a mantê-los com o olhar voltado apenas para seu egocentrismo sem olhar para as dificuldades dos outros, pois acreditamos que isso pode ser mais bem trabalhado em função do todo. Estamos aprendendo a andar com as próprias pernas. É um momento de desvencilhamento, de passagem e provações e provocações. Poderemos cometer equívocos, mas seremos perdoados, se a coragem for fiel ela vai continuar morando em nós e também descobriremos a formula de perdoar insultos. Poderemos cometer um pecado apocalíptico e teremos de ser perdoados, pois curiosidade não é crime. Crime é não saber de nada e continuar não querendo saber! De tanto nada saber da vida das crianças a escola se torna um invento fabril e a escola não vai à casa de ninguém tornando-se uma instituição que não conhece seus alunos, mas julga comportamentos. Sentimos a pena do distanciamento da instituição escolar em relação aos horizontes que fecham ou abrem caminhos de cada criança.  E se por entre essas paredes institucionais (mesmas paredes de onde vêm vozes que dizem que professor é apenas entre quatro paredes) surgisse alguém rompendo esses rochedos de clausulas, fichas de chamadas e portões da escola e fosse ao menos um dia do ano ver de perto a paisagem que cerca a visão de cada criança? Já que ao passar a barreira para dentro dos portões escolares essa criança deixa a infância lá fora e se torna aluno, rápido assim, como o inseto kafkiano (KAFKA, 2005) que se vê diante de um quadro de metamorfose, não apenas pessoal, mas também físico. É deslumbrante pensar na possibilidade de envio de tropas de pibidianos para uma missão de resgate e reconhecimento da vida das crianças que são devoradas todos os dias pela esteira escolar e ao serem regurgitadas na forma de alunos recebem seu status de estudante nem sempre de acordo com a realidade.

Determinantes

Desilusão. O tempo todo está presente em nossas vidas, como a onipresença de um Deus que por via das dúvidas não é bom deixar totalmente de lado, mas o reconhecê-lo como um caçador de contos de fada, um personagem fatalista, mas não de todo, que de alguma maneira deixará vida em nossos corações.
O que torna um homem alcoólatra, e o que faz esse homem se transformar de algum modo em empecilho para a harmonia da vida cotidiana familiar? Por que julgar a existência de tal sujeito como criminoso que condensa pequenos crimes na sombra do direito civil ao ter acesso ao próprio lar e andar pelas ruas sem comprometer o sossego alheio? Porém, em casa agir de modo banal, fazendo com que seus netos presenciem cenas horripilantes que só são vistas diante de alguma excentricidade social, de forma irracional, bêbado, mas com total poder de subjugar as pessoas que por questões de necessidade ou afetividade dividem o mesmo teto, o mesmo café, o mesmo almoço, o mesmo jantar e quando recorrem ao CAPS (CENTRO DE ATENDIMENTO PSICOSSOCIAL) tem de ouvir que só por vontade própria será internado e relevado como necessidade da instituição.
Questões como essa inflam os campos escolares e dividem vozes no momento de reclamar veemência quando uma criança com um quadro social desses entra na escola e tem em sala de aula mais um subjulgamento ofertado pelo professor ou professora que nem sequer pode imaginar a luta cotidiana em casa para que em sua vida o termo infância faça sentido. Em todas as escolas que esse menino passou sofreu abusos por parte de colegas e teve julgamento sumário por parte de suas professoras.
“Ele é bem preguiçoso”. “É irresponsável”. “Brigão”. “Não obedece a gente”. “Não faz a tarefa”. Era o que diziam os professores à sua mãe. Esta, por sua vez, com a 8ª série do ensino fundamental, 27 anos, evangélica, sobrevive com a ajuda do pai dos dois filhos que deposita mensalmente uns 300 ou 400 reias. Entende que seu filho é um verdadeiro vexame, não sabe se fala mal, se dá umas palmadas, que na realidade habitual de muita gente ainda faz muito sentido, ou se lhe aplica um castigo bem tolhido. Por fim, cala-se, mas em momentos de fúria e exaustão de ter que dar conta de tanta responsabilidade, como pagamentos de água, luz, farmácia, supermercado, padaria, aluguel, e ainda ver seu filho diante de um desastre que o mesmo nem entende como tudo esta acontecendo, em algum momento o grito de agonia de uma mãe desamparada vem à tona em forma de xingamento e o filho é chamado de burro, tonto, merda... e tudo isso acontece sem a possibilidade de se localizar onde está. É um torvelinho de vertigens!

Se o sistema está em toda a parte, isto significa que, assim como o verdadeiro Todo-poderoso, ele não aparece em nenhum ponto especifico, ou seja, é invisível, e, nessa condição, pode-se alegar que não se trata de sistema coisa nenhuma. O pansistemico pode transformar-se, com um pequeno empurrão no anti-sistemico. (EAGLETON, 1996, p. 15).

Num caso de radical excentricidade o garoto que descrevemos  nesse documento agrediu fisicamente a professora, o conselho tutelar teve de ser chamado, só então o menino foi encaminhado a um psicólogo no PSF (PROGRAMA DE SAÚDE DA FAMÍLIA) local, onde o psicólogo lhe receitou algumas pílulas, e só! Tratamento mais superficial do que este não se poderia, é ridículo, quase o Estado deu conta do problema, mas não chegou lá. Não chegou, reforço. O garoto ainda está desaparecido entre os entulhos das estatísticas, notas trimestrais, n° de faltas, desafetos, sensibilidade da sua infância violada, e o que ganha? Pílulas para acalmar sua agitação ou excentricidade! Isso não é para rir!
Isso é para muita gente ver e sentir que a superproteção empregada de alguns pais a seus filhos não pode parecer tolice como também pode ser uma forma de remediar a visão pavorosa de alguma outra criança inerte em miséria.

Se meu corpo representa algo que uso e possuo na analogia de um abridor de latas, então poder-se-ia pensar que eu teria necessidade de outro corpo dentro desse para fazer uso, e assim por diante, num retrocesso infinito. Mas esse antidualismo fiel, embora salutar em alguns aspectos, também não procede no que diz respeito a muitas de nossas instituições acerca do monte de carne que arrastamos por aí. Faz perfeito sentido falar de usar meu corpo, como quando o utilizo como pontes sobre o precipício, afim de que meus companheiros possam atingir o outro lado com segurança caminhando sobre minha coluna vertebral. O tempo todo objetificamos vendo-o como uma dimensão necessária de nosso ser, e o pós-modernismo equivoca-se ao acreditar, mais com Hegel do que com Marx, que toda objetificação significa alienação. Com efeito, tem muita objetificação discutível por aí; mas nem por isso os corpos humanos perdem sua condição de objeto material, sem a qual inexistiria a possibilidade de relacionamento entre eles. (EAGLETON, 1996).


Através do PIBID sentimos que a mesma escola em que estudamos há sete anos continua a mesma, causando arrepios de pensar em como se parece com o processo que acontece em “Almas Mortas” de Nicolai Gogol (2003), que expõe no principal personagem do livro o sentimento e a necessidade de “ter para ser” (FREIRE, 1997) no caso: ter estatisticamente. No mesmo caso se dá a avaliação em patamares representados por números. Ou estatística do ter para ser e ser incluído entre os aprovados. Se a nota final de cada avaliação é compensativa pelo número de respostas corretas dadas por cada aluno, onde entra a recompensa por um gesto de solidariedade com um colega. Isso não está nos autos, mas como pibidianos nos sentimos frustrados pelo sistema educacional não incutir a tal atitude uma recompensa, isso também é ser solidário com a Humanidade.

Considerações Finais

Corpos objetos, almas como objetivos. Vidas em total desnível com instituições que frustram a lógica com uma linha retórica que diverge com a realidade social de cada sujeito transformado em número, e um deus metafísico, pai de todos que serve as classes burguesas e celebra sua aristocracia com a ração minguamente distribuída à classe operaria que lhe é vedada a boa formação acadêmica e assistência médica, moradia, saneamento básico e atenção psicossocial. Embora a psicologia não consiga transformar a vida das pessoas na ordem material, poder-se-ia pensar na possibilidade de ao menos uma transformação na forma de pensar para agir de modo que seja possível compreender e justificar a cobrança à harmonia.
Ao colocar em xeque a instituição escolar faço questão de lembrar que o retorno que se espera de alguns alunos são impossíveis de serem alcançados pelo fato da moral estar destruída por eles mesmos ao ter em vida particular reforços que o convençam de sua insignificância e falta de sentido que a escola tem em sua vida, pois ao ser violentado em casa vai para a escola com personalidade avariada onde é recebido com mais doses homeopáticas de violência.
Toda competição é violenta, o que a diferencia de um à briga de gangues é que a competição esportiva tem uma violência controlada e dirigida, ao descobrir que num período de meia hora antes da entrada em sala de aula os alunos permaneciam em liberdade inexistente colocamos em pratica o tênis de mesa e o jogo de Damas. Num dia qualquer perguntamos a um dos mais assíduos participantes do jogo de Damas o que ele fazia antes do espaço para o jogo ter sido criado:
- Eu ficava brigando na rua ou aqui dentro (da escola) mesmo.
Encontro nisso a razão para continuar intervindo dentro da escola, conhecendo realidades. O mundo escolar tem o dever de recepcionar bem seus discentes e não é o “bem vindo” no tapete da porta de entrada que vai fazer a diferença e sim o que a escola fará por eles. 
Poderíamos parar agora e recomeçar muitas coisas, mas é tão louca a palavra abandono que deitar suicidamente no asfalto seria desejar que tudo que já está em movimento atropele nossos sonhos, delicadas esperanças.







Referências

EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Tradução: Barbosa, Elisabeth, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

GOGOL, Nicolai. Almas mortas. São Paulo: Nova Cultural, 2003.

KAFKA, Franz. A Metamorfose. Editora Presença, 2005.

FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar. 10ª ed. São Paulo: Olho D’Água, 1997.

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